por Patrícia Comunello
As quatro histórias narradas a seguir revelam o potencial que o brasileiro tem de gerar negócios. A fama foi confirmada pela última edição da pesquisa GEM (Global Entrepreneurship Monitor), de 2008, que colocou o Brasil na 13ª posição no ranking do empreendedorismo entre 60 países que produzem 95% da riqueza mundial. A trajetória de Ivana Candeo, da Sabor Vital, de Emílio Silveira e sua mulher Eloísa Marchese, da Casa das Perucas Jurema, de Lizane Martins, do Ateliê Diet, e de Regina Miranda, da Claríssima, confirma que ganham mais espaço iniciativas alicerçadas na oportunidade. Para melhorar de vida ou diversificar o campo de atuação, Ivana, o casal Emílio e Eloísa, Lizane e Regina apostaram em produtos diferenciados e, por que não, inovadores ao preencher expectativas de consumidores muito especiais. Por isso, o quarteto pode inspirar outros "oportunistas" de plantão. Um bom motivo está na mesma pesquisa GEM, capitaneada no País pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), com sede no Paraná. Pela primeira vez, em nove anos de levantamento no Brasil, a população de empreendimentos de oportunidade cresce em maior velocidade do que a dos negócios por necessidade (que surgem de contingências, como perda de emprego). A relação é de dois para um. Mas esses quatro exemplos, que validam ainda a maior longevidade de negócios por oportunidade, agregam virtudes inusitadas. Todos descobriram seu potencial a partir de experiência pessoal ou soluções fomentadas nas relações familiares. O resultado supera a simples venda de produtos ou serviços.
Dez características empreendedoras 1. Busca de oportunidade e iniciativa: fazer as coisas antes de solicitado ou antes de forçado pelas circunstâncias; 2. Persistência: agir diante de um obstáculo significativo; 3. Comprometimento: colaborar com os empregados ou colocar-se no lugar deles, se necessário, para terminar uma tarefa; 4. Exigência de qualidade de eficiência: encontrar maneiras de fazer as coisas melhor, mais rápido ou mais barato; 5. Correr riscos calculados: agir para reduzir custos ou controlar resultados; 6. Estabelecimento de metas: estabelecer metas e objetivos que são desafiantes e que têm significado pessoal; 7. Busca de informações: dedicar-se pessoalmente a obter informações de clientes, fornecedores ou concorrentes; 8. Planejamento e monitoramento sistemático: planejar dividindo tarefas de grande porte em subtarefas com prazos definidos; 9. Persuasão e rede de contatos: utilizar estratégias deliberadas para influenciar ou persuadir os outros; 10. Independência e autoconfiança: buscar autonomia em relação a normas e controle de outros.
Sem glúten, mas com sabor atraente
Ivana Candeo, formada em Ciências Sociais, descobriu em 2004 que tinha intolerância ao glúten. Para a jovem, que reside em Porto Alegre, foi o fim das rodadas de pizza e da macarronada. Pãozinho com alho no churrasco de domingo? Nem pensar. Olhando de outro ângulo: a doença celíaca acabou abrindo caminho de um negócio que hoje não para de crescer, dobrar de tamanho e que ganhou clientela pelo País. Ivana um dia desistiu de comer palitos duros sem glúten e sondar garçons para saber se o prato do cardápio estava ou não ajustado à sua dieta. Ela decidiu, então, que prepararia em casa produtos livres da proteína. Deu tão certo que os quitutes, entre pães, biscoitos, bolos e massa de pizza, conquistaram fãs até entre quem não sofria com restrição ao glúten. "Dava para fazer coisas bem gostosas. Se era bom para mim, podia ser para outros como eu", recorda a hoje microempresária. No começo de 2006, a cientista social passou a abastecer mercearias especializadas na Capital. A demanda só aumentou, e Ivana teve de criar marca própria, a Sabor Vital, agregando embalagem do mesmo padrão de produtos comuns, além de profissionalizar a gestão a partir de lições tomadas em cursos do Sebrae-RS. O marido Marcelo Acevedo largou o emprego e se somou à empreitada, que atraiu também outros familiares. A cozinha de casa, que não comportava mais o tamanho do negócio, foi substituída por uma área maior, que ganhou maquinários e nova equipe de trabalho. Hoje a mini-indústria tem mais de 20 produtos diferentes, seis funcionários e rede de abastecimento que inclui gigantes do varejo como Wal-Mart e Zaffari, além de 96 pontos espalhados pelo Estado e distribuidores em diversas regiões. São Paulo e Rio de Janeiro ocupam cada vez mais espaço no destino das encomendas. No controle das finanças está o marido, que avisa: a Sabor Vital vai dobrar de tamanho a cada ano até 2011. "Mercado não falta, temos é de ter capacidade para atendê-lo", justifica Acevedo. Para isso, a dupla de empreendedores já estima investimento de R$ 100 mil, cifra que será buscada em linhas de crédito do governo federal. Ivana gosta mesmo é de narrar as reações de quem consome os produtos. "Tem gente já pedindo biscoito com mesmo gosto de uma cream-cracker", cita. "Eles têm todo direito de exigir. Sentia-me uma ET ao não poder consumir o que via na prateleira. O mais legal neste trabalho é saber que estou ajudando pessoas como eu a ter melhor condição de alimentação e de vida", acrescenta. E ninguém duvide do potencial dessa jovem. Um dos desafios agora é desenvolver um pão na melhor tradição francesa. "Seria uma inovação que não se encontra em nenhum lugar". É só esperar para ver.
Branco que atrai clientela da saúde
A ideia foi da filha Patrícia. Mas quem colocou o negócio a funcionar foi a mãe Regina Algarves Miranda. Patrícia e a irmã Letícia são dentistas, profissionais que vivem literalmente de branco praticamente o dia todo. Cansa vestir sempre o mesmo jaleco, o mesmo sapato e a calça sem muito estilo. Patrícia decidiu provocar a mãe, que deixara o ofício de professora pública estadual de química. "Por que a senhora não abre uma loja focada em itens brancos para atender ao público profissional como nós?" Regina estudou a oferta e se convenceu do potencial. Assim nasceu Claríssima, há oito anos, na avenida Cristóvão Colombro, em Porto Alegre. O nome, claro, diz tudo. O foco, segundo Regina, seria inovar em jalecos. Criar modelos com mais design, elegância e conforto. No começo, eram quatro versões. Hoje as opções de pronta-entrega chegam a 26, mas o cliente pode encomendar peças conforme o gosto. Regina passou a incrementar e a desenvolver coleções próprias, de blusão, casaco, jaleco a calçados. Além de itens da etiqueta Claríssima, há também multimarcas. O que a empresária fez foi tornar menos óbvia a tradicional roupa branca. "Estar bem arrumado ajuda até na relação com os pacientes. Quebra a formalidade", acredita Regina. "Pode ser até com um simples jaleco, com um detalhe diferente, acinturado e com um bordado." Hoje 85% da clientela é do ramo da saúde. As filhas também ajudam a pulverizar a grife materna. "Vou a congressos e divulgo a loja", conta Patrícia. Na Capital, o negócio foi ampliado. De uma sala, Claríssima expandiu para outro espaço há três anos. Também gerou mais empregos - são quatro funcionárias. Regina revela mais uma solução ajustada à rotina de clínicas, consultórios e hospitais. Uma consultora-vendedora percorre os locais de trabalho de médicos, dentistas e fisioterapeutas para divulgar o portfólio e fazer pedidos.
Perucas elevam autoestima de clientes e geram lucros
Uma peruca pode mudar a vida de uma pessoa. O casal Emílio Silveira e Eloísa Marchese é prova de que o artigo não só revoluciona o estado de espírito de quem sofre com adversidades de uma doença como altera o rumo de um negócio. Silveira foi precursor na Capital de um nicho que rende bons lucros, mas que seu principal dividendo está em alterar a expressão de rostos dilacerados pela dor do câncer e pelo impacto de tratamentos, como quimioterapia, que provoca queda do cabelo. Há 20 anos, o químico herdou da mãe, que ironicamente enfrentava problemas de saúde, um salão de beleza na avenida Azenha, em Porto Alegre. "Literalmente, nasci no meu trabalho. Minha mãe trabalhava aqui, entrou em trabalho de parto e acabei nascendo aqui mesmo." O estabelecimento operava há mais de 30 anos. "Tinha de transformar o salão em receita", recorda Silveira. Problema número um: ele não entendia nada de penteado, corte de cabelo e, muito menos, de manicure e pedicure. Problema número dois: o que fazer com perucas, fora de moda na época, esquecidas no salão. O caminho para diversificar o negócio veio justo desse estoque. Daí surgiu a Casa das Perucas Jurema. Silveira descobriu que na Europa e nos Estados Unidos, o acessório tinha forte clientela entre pacientes com câncer. Consultórios médicos vendiam o produto e, na França, o governo financiava a aquisição. Para abrir caminho no mercado médico local, o empresário expôs produtos em um congresso de oncologia e teve a sorte de ser citado por um dos palestrantes mais badalados do evento. O especialista elogiou ao abrir sua conferência, a "vanguarda dos gaúchos ao recomendar o uso de perucas aos pacientes". O efeito foi imediato. Ligações de médicos indicando clientes não pararam mais. Resultado: o filão responde hoje por 90% do faturamento. Eloísa, que lida diretamente com as pacientes - a maioria mulheres, emociona-se com a transformação que uma peruca provoca. "Elas chegam aqui muito tristes e saem com brilho no olhar." Com a especialização e o aumento da procura, o salão montou equipe exclusiva com oito funcionárias para atender às pacientes. Há cabines individuais, onde a cliente experimenta as opções, entre modelos com fios artificiais e naturais. Os preços vão de R$ 400,00 a R$ 5 mil (naturais). A empresa também desenvolveu um projeto de banco de perucas com o Imama-RS. Eloísa justifica que o trabalho é muito especial e exige sensibilidade. "Muitas têm dificuldade para andar quando entram aqui. Temos consciência do nosso trabalho, pois qualquer palavra pode causar desconforto", pondera. "A peruca acaba sendo parte do tratamento", convence-se. A preocupação também inclui indicar modelo, com corte e cor, que se ajuste ao visual, resgatando a personalidade da pessoa.
Liberado para diabéticos com amor
Nativa de Pelotas, a meca dos doces no Estado, Lizane Martins prepara quitutes sem açúcar para prazer da sua clientela diabética. A microempresária também dá outra pista: seus produtos da marca Ateliê Diet são tão bons que mesmo quem não tem a doença está sempre consumindo alguma das delícias feitas em sua casa. O negócio começou a ser fermentado há cerca de dez anos. Em 1999, o marido de Lizane, Fábio, na época namorado, descobrira que tinha diabetes. A doença precipitou o casamento dos dois e também uma decisão: a microempresária faria em casa os doces que o comerciante Fábio não podia nem sonhar em comer. "Ele cansou de comer creminhos diet em festas ou em nossas saídas a restaurantes", recorda a quituteira, que já tinha feito curso de culinária tradicional. Para desenvolver as variedades, Lizane buscou consultoria de uma nutricionista. "Meu marido foi a cobaia. Tinha um enorme prazer ao ver a alegria e satisfação que ele tinha ao poder consumir os produtos", assinala a dona do Ateliê Diet. Os colegas de trabalho - ela era prestadora de serviço da Caixa Econômica Federal - também. O sucesso de trufas, bolos, tortas e musses foi instantâneo. "Familiares e amigos me incentivaram a abrir um negócio, largar o banco e me dedicar aos doces", lembra. Em 2007, Lizane decidiu criar o Ateliê Diet, que contou com suporte do Sebrae-RS, ajustes da cozinha para se adequar a normas de saúde e registro da marca. Também teve de desenvolver formas de lidar com ingredientes ou encontrar matéria-prima para alcançar resultado de qualidade o mais próximo possível de um doce tradicional. Conseguir colocação para seu cardápio de dezenas de variedades de guloseimas sem adição de açúcar não foi difícil. Hoje ela abastece nove confeitarias em Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre, além de atender a pedidos para festas e consumo caseiro. Também já foi sondada para enviar produtos a Santa Catarina. "O problema é a conservação, pois são todos feitos no dia", justifica. O ritmo de produção do Ateliê, comandado exclusivamente por Lizane, é intenso. A rotina inclui jornada entre 8h e 1h no preparo de encomendas. São 50 a 60 tortas por dia, por exemplo. "Faço tudo com muito prazer. Cada doce é individual. Sei das limitações de quem vai consumir", ressalta. A convivência com o diabetes do marido rendeu lições e a percepção de como é o comportamento da clientela. "As pessoas com a doença são muito desconfiadas. Estão sempre fazendo teste para verificar se não houve alteração na taxa de açúcar do sangue", explica a microempresária. A atenção aos consumidores é proporcional. Lizane está sempre pronta a ir para a cozinha para tornar realidade o desejo de última hora de um diabético por um doce.
Perfil do pequeno empreendedor Por necessidade 28% dos empreendedores jovens (18 a 24 anos) 100% têm renda de um a três salários mínimos 60% têm nível de escolaridade de quatro anos 40% são de serviços orientados ao consumidor
Por oportunidade 29% dos empreendedores jovens (18 a 24 anos) 33% têm renda de um a três salários mínimos 40% têm nível de escolaridade de cinco a 11 anos 44% dos empreendimentos são serviços orientados ao consumidor
Desafio é elevar o grau de empreendedorismo
Entidades e profissionais ligados ao fomento e suporte de empreendedores defendem que os negócios de oportunidade devem receber mais incentivos e recursos para profissionalização. Hoje o Brasil tem 14,6 milhões de pessoas desenvolvendo atividades com menos de três anos de vida, a etapa decisiva que indicará a sobrevivência de uma empresa. Outra medida sugerida: corrigir problemas de gestão em iniciativas surgidas da necessidade, o que reduziria o índice de mortalidade dos negócios. O desafio, neste último caso, é agregar ao esforço de abrir uma empresa suporte técnico e de gestão que transforme o perfil em oportunidade, cuja marca registrada é o maior êxito e foco em produtos e serviços com mercado promissor. O pesquisador do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) e integrante da coordenação do projeto GEM no Brasil, Paulo Alberto Bastos Junior, traduz: "Melhorar a qualidade do empreendedorismo brasileiro é conseguir chegar ao empresário por necessidade e capacitá-lo". Para isso, Bastos defende trabalho coordenado entre sindicatos, instituições financeiras e de apoio a pequenas e microempresas e até agências do Sistema Nacional de Emprego (Sine). "Tem de levar informação, com ferramentas mais fortes." A pesquisa do GEM, que tem apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e da Federação das Indústrias do Paraná, mostra que em 2008 o País gerou dois novos empreendedores por oportunidade para cada um por necessidade. Até 2007, a proporção era inversa. O levantamento mostrou ainda que a escolaridade, o nível de renda e o investimento são sempre mais elevados no primeiro caso. "Com isso, tem muito mais chance de dar certo", conclui Bastos Junior. "Uma das principais causas da mortalidade dos negócios é justamente a baixa qualificação profissional, pessoal e educacional." O superintendente do Sebrae-RS, Marcelo Lopes, projeta mais investimentos em capacitação para assegurar a pulverização de empreendedores no Estado e sua qualificação. Serão R$ 11 milhões a mais este ano para financiar cursos, consultorias e palestras. Entre os planos, está a ampliação de 20 para 60 módulos em 2009 do Empretec, oficina que alcança ferramentas para iniciantes. Gilca Marchezan Bellaguarda, da E-saberes Consultoria e Treinamento, ressalta que as ações devem corrigir deficiências que se repetem em negócios. A consultora identifica falta de planejamento e foco superlativo em operação. |